Ser tolo ou não ser, eis a questão.
- Exercícios de escrita de Maceo
- 9 de nov. de 2019
- 10 min de leitura
"Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz." (de Clarisse Lispector do texto "Das vantagens de ser bobo").
Certa vez, numa prova de Desenvolvimento III deparei-me com um poema de Clarice Linspector sobre ser tolo - refiro-me ao texto "A Vitória Nossa de Cada Dia", e não o que elegi como epígrafe. Aqui, vão algumas reflexões que muito bem se serviram dessa leitura.
Em um debate, nos últimos tempos, só uma questão importa: ser tolo ou não ser. Quando acontece um debate, com frequência, o que nele se busca é um posicionamento diante do óbvio, do que se pode dizer "é, veja como as coisas são". Esse jeito das coisas serem, sustenta a existência do debate, entre aqueles que dizem como as coisas são. Muitas vezes, quando não evitado, acaba numa zombaria ou em uma emergente união. Antes de assumir essas conclusões quero pensar aqui: o que seria ser tolo e, por extensão, o que seria fazer tolice?
A tolice existe aos olhos do não-tolo: só se pode existir um tolo se existir um outro não-tolo. É aos olhos do não-tolo que o tolo aparece como tal, além disso, não apenas no olhar, mas fundamentalmente no chamar de tolo, o tolo é um chamativo. Podemos encontrar o tolo em dois momentos específicos do debate, no momento em que um percebe que o outro, que chamo aqui por "tolo explícito", não fala sobre obviedades, e, em outro momento, em que as obviedades entre dois são dispares, contém objetos-óbvios diferentes, situação propícia para a criação do que chamarei aqui por "tolo imaginado". No primeiro caso, o tolo aparece de fato. No segundo, o tolo aparece envergonhadamente, e é apenas nesse caso em que se podem desdobrar a zombaria ou a união que havia dito anteriormente. No primeiro caso, a tolice é performada por um dos debatentes, no outro elege-se um terceiro, possivelmente imaginário, que dará forma a dicotomia fundamental e condição da permanência dos dois sujeitos no debate: a dicotomia dos tolos e dos não tolos, isto é, os tolos não aparecem de fato, nesse segundo caso, mas subjacentemente o permitem acontecer. Portanto, o tolo surge da condição de existência de um debate como tal, há de existir dois seres, os quais ou estabelecerão entre si uma linha, à determinar o não-tolo e o tolo, ou, farão essa linha situada além deles, e não entre, perfazendo uma união que os separarão de um outro, imaginado pelos dois, um outro-tolo que faz deles não-tolos. Porém, aqui, ainda não nos inclinamos a responder a pergunta inicial, mais nos aproximamos do que seriam os não-tolos do que os tolos, por quem havíamos nos questionado. Ainda assim, chegamos nessa breve conclusão: ser tolo é ser tolo para um outro, assim como não ser tolo também o é.
Sabe-se, então, o óbvio subjaz os não-tolos e fundamenta a existência dos tolos. Os tolos não sabem o que é óbvio num debate. Mas o que seria o aqui nomeado debate que faço menção? Um debate, como um evento em que duas ou mais ideias são apresentadas e defendidas, seria a estrutura do que chamo por debate. Digo estrutura porque, se o debate é sóbrio como tal, em que são apresentadas ideias e não verdades, em que o objetivo não seria desmentir falas, em que o óbvio não faz parte do jogo, como poderia surgir o tolo? Então, a estrutura de defesa aparenta ser fundamental, ela é extremamente útil para o acontecimento da tolice. Defende-se de ser taxado como ingênuo, aquele que sentencia a existência dos tolos. Para isso, usa o óbvio, que se expressa num tom de indignação, algo como "mas não acredito que voce não saiba que ...". O "voce" é, com essa frase, deslocado para uma espécie de solidão, o "voce" não sabe aquilo que um suposto grupo de pessoas sabe, e que tanto sabem que se questionar sobre é motivo de estranheza. Esse não saber do tolo, aos olhos do não-tolo, não é o não-saber de uma ideia ou verdade, mas o não-saber de uma obviedade. Por isso o "voce" é deslocado à solidão, fora do grupo dos que sabem, se faz tolo. O tolo não sabe o óbvio, que, por sua vez, indica a tolice. Aqui, ainda que tenhamos caminhado pouco com relação ao tolo, chegamos a uma conclusão fundamental: a única questão que importa num debate é, como havia dito de início, estabelecer o que é tolice e o que não é, ser tolo ou não ser.
Chegamos a última questão, o que seria, então, fazer tolice? A tolice aparece, nesse debate, quando confrontada com o óbvio, ela é estar sozinho, fora do grupo dos não-tolos. A tolice seria nesse sentido uma questão de condição: conforme estabelecidas as condições de ser ou não ser tolo, o tolo pode surgir fazendo tolices. Mas como dito no início, o tolo só existe na relação com o não-tolo, logo, a forma como o tolo é taxado de tolo mostra-se fundamental para pensar o que seria a tolice aos olhos do não-tolo. A tolice é motivo de indignação, na qual dizer "tolo" faz-se como um ato de admoestação, é uma maneira de violentá-lo, violência que pode, inclusive, ter como justificativa - e aqui podemos pensar na ideologia presente na concepção de ensino e aprendizagem dessa sociedade que se faz nesses debates (n. de roda pé) - uma punição necessária para ele não repetir o erro de ser tolo. Mas, além disso, há um prazer em dizer "tolo", um prazer de estar no grupo dos que sabem, de não estar relegado a perambular vagamente por aí, ser ingênuo. Deve-se considerar isso, trata-se de um prazer sádico.
Mas, se o tolo não vale de nada, se ele está sozinho, porque há a necessidade de violentá-lo, em vez de orientá-lo ao caminho do óbvio. Talvez por conta da ideologia do aprendizado - que aqui não faço nenhuma precisão -, mas seria fácil deslocar o problema a uma região que deveria ser investigada sem se propor a essa investigação. Se o tolo não vale de nada e se pode ensinar a ele o óbvio porque não é ensinado? A resposta seria: porque não aprende, porque é burro, porque lhe falta cultura? Essas são respostas que caem num determinismo obscuro que apenas justifica a violência a ser perpetuada nas relações sem apurar as condições que a possibilitam, apenas dizem "porque é burro", "porque não sabe", "porque teima", e nada explicam; facilmente poderíamos questionar tais termos, mas provavelmente a continuação dessa conversa cairia num "mas como assim o que é burrice", "mas como assim o que é cultura", e para evitar tal situação precisamos questionar, aqui, o porque de ser necessário dizer "tolo", sem jogar no campo da suposta malévola ideologia de aprendizado, e sem se calcar nesses determinismos obscuros dos inteligentes, "possuidores de cultura".
Então, parece que nossa última pergunta exige uma outra, fazer tolice seria o que o tolo faz, mas afinal, o que o tolo faz que irrita tanto a ponto de ser chamado como tal? O tolo faz uma coisa que o não-tolo não faz, o tolo erra. Esse erro, por sua vez, é condenado a punição de "tolice" pelo não-tolo. O óbvio não é óbvio pro tolo, o tolo não depende da obviedade. E talvez saibamos que o tolo erra porque no debate o tolo não esteja a procura do óbvio. O debate é outra coisa pro tolo, por isso, nos desdobramentos de zombaria ou união, o tolo não aparece, ele é apenas imaginado, porque para ele aparecer, ele deve estar presente no debate fazendo outra coisa que não buscando o óbvio. A incongruência do tolo com relação ao debate ainda não justifica a necessidade da violência, ele deve fazer algo que irrita o não-tolo, e esse algo com certeza está no errar. No debate, para não ser tolo não se pode errar, a condição talvez seja de mão dupla, não se pode ser tolo se não o erro aparece, não se pode errar se não aparece a tolice. Errar e ser tolo tanto faz, então. O erro tem a ver, assim como a tolice, com o óbvio, o erro é, nessa estrutura de debate, não dizer o óbvio. E não dizer o óbvio irrita o não-tolo.
Temos, até agora, que o tolo pode errar, sua identidade como tal o permite fazer isso, o não-tolo não, ele não pode ser tolo. O tolo, nesse sentido, goza de uma liberdade invejável ao não-tolo. Trata-se de um poder do tolo. Esse poder se faz da relação incongruente do tolo com o debate, em que o tolo não procura o óbvio. Se o tolo não busca isso, ele busca o que então, que é isso que tanto inveja o não-tolo? O tolo está a procura da verdade. Num debate, ele deve ser admoestado porque ele está atrás de algo que tanto pode fazer da tolice nada valer, quanto concomitantemente fazer do não-tolo um tolo por estar em busca de algo que é ínfimo diante daquilo que de fato é, de como as coisas realmente são. Isso irrita o não-tolo que tenta não parecer tolo: o tolo não teme parecer nada, esse esforço de tentar parecer de nada vale para o tolo perto do esforço de tentar conhecer as coisas. Dizer "é, as coisas são assim" não lhe faz sentido. Ele quer conhecer como as coisas são. Porém se ele seguir por esse caminho, descobrirá, consequentemente, a verdade por de trás do não-tolo, alguém que não tem coragem de vencer a vergonha do erro, alguém que defende a todo custo o próprio orgulho, a ponto de poder concordar com alguém que defenda algo completamente distante do que acredita se estiverem de acordo em não passar vergonha juntos; quando dois se vêem ameaçar o próprio orgulho diante do não-óbvio é mais fácil juntarem-se e elegerem um tolo que os faça conhecedores do óbvio, um tolo que os faça não-tolos.
Violenta-se o tolo porque se tem medo da vergonha. Um outro, na cabeça dos não-tolos, os faz passar vergonha a ponto de evitarem atravessar o próprio erro em busca de conhecer as coisas. Uma vergonha que os impede de ser aquilo que seriam se errassem como eles mesmos são, errassem com aquilo que de fato acreditam, a vergonha de errar impede o não-tolo de conhecer a si mesmo, ao impedi-lo de reconhecer o próprio erro, e o impede de conhecer o mundo por não poder errar. Me parece que o não-tolo vive numa ditadura do óbvio em que, se o que ele for, não for óbvio, ele deverá sofrer com a tortura da vergonha. Parece que deslocamos a violência, aqui, perguntávamos porque os tolos são violentados, agora perguntamos porque os não-tolos se violentam. Acho que já podemos caminhar para o fim dessa breve discussão.
O que fiz aqui foi um levantamento de perguntas e desvios diante das questões matrizes "o que é o tolo" e "o que é a tolice". No desenrolar do texto alguns conceitos foram imprescindíveis para o desenvolvimento das ideias, óbvio, erro, verdade, identidade, medo e vergonha são alguns deles. Creio que aí boas discussões poderiam surgir, mas para dar seguimento as ideias centrais, aqui, optei por não me delongar, nem mesmo em notas de roda pé. Mas, enfim, estou aqui justificando meus passos e deixando de caminhar, como faz um bom não-tolo... como já disse em qualquer debate por aí quase sempre se trata da mesma coisa, eu e voce, leitor, ser tolo ou não ser, eis a questão.
Acima de tudo o que foi discutido, deve estar claro que a violência com o tolo acontece em nome de uma moralidade. O tolo é imoral, vil, com ideias torpes, pouco alinhadas com o que é óbvio, e o não-tolo é moral, em dia com sua vergonha, bem comportado diante do imaginário outro. O óbvio forma um grupo ideal que é referência para a determinação dos tolos e não-tolos, diante desse grupo o não-tolo passa vergonha e, desse mesmo, o tolo é separado, apartado e relegado a estranheza. Esse, além de ser um grupo qualquer, é um grupo que identifica os dois, o tolo e o não-tolo, confere-lhes identidade, concede-lhes existência social. Ser ou não ser tolo, ser ou não ser imoral, estão sob o mesmo mecanismo de defesa do debate. A imoralidade do tolo e a moralidade do não-tolo estabelecem-se aqui como uma questão de ser ou não ser alguém, ser ou não ser estranho. E, aqui, o ponto que julgo mais delicado aparece, pois, se a existência de alguém, como ser humano, depender de saber dizer "é, veja como as coisas são", quando essas coisas forem o nazismo, a escravidão - se já não são - aqueles que contestarem as formas de violência serão ditos tolos, e toda barbárie se justificará pelo mero medo de se reconhecer como errante. Não morrerão pessoas pelo peso da verdade, diante do qual é compreensível se curvar, mas pela mera vergonha de ser o que se sente. Essa vergonha de ser humano, se revela como o medo de não ser o herói que pensava ser, quando dizia o óbvio, mas na verdade atrás dele se escondia. E o pior, essa vergonha se não enfrentada, mata sem dó, assim o faz pois nada a impede de matar, a morte se justifica aí pelo óbvio, assim como era óbvio para os nazistas a existência de uma raça ariana.
Enfim, aquele que muda de opinião, aquele que erra na frente dos outros, se percebe, sente vergonha, pode ser alguém no mundo? Parece que sim, deve ser alguém. Ser alguém não deve depender de uma busca por caminho certos ou errados a serem trilhados, mas de caminhar. O tolo vê uma importância fundamental em caminhar, ele, ainda que com a vergonha, segue andando porque a vergonha é mínima perto do sublime sentimento de encontrar e, talvez, ilusoriamente, criar caminhos. O tolo não mata ninguém na sua ilusão sublime, pois ele se sabe alguém, sente o que é ser humano, teme morrer, e sabe que as pessoas temem morrer. Ele caminha sem matar, corre, saltita por aí, irrita os não-tolos, com sua vontade de correr e leveza ao descansar que amparam sua existência. A vergonha pode fazer parar onde se viu querer mudar, e é querer mudar que move o tolo, a verdade. E como a vergonha reside no olhar de um outro sobre si, é com ele a questão de ser ou não ser. O tolo olha esse outro no fundo dos olhos, o escuta, e diante do que ele fala, responde, existe. O não-tolo prefere ser por ele esquecido, para de respondê-lo, e, então, o que ele escuta desse outro-ditâmico é a última voz que se ouve, torna-se uma ordem pelo medo de sentir vergonha, sua voz se cala, deixa de existir verdadeiramente e passa a viver pelo óbvio, pelo que agrada o outro e tranquiliza sua consciência da vergonha. Infelizmente, para o não-tolo, sempre haverá algum sujeito que aparenta não ser violentado por essa ordem do outro e, que, em forma de estranheza, aparece movido por uma coragem que irritará o não-tolo, e então não será novidade ouvir dele: "como não percebes o óbvio! é um tolo mesmo".

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